Em sua frente, um alto homem assentado vestido com um manto alvo como a própria claridade do aposento o esperava numa grande poltrona muito acolchoada de um tom verde-esmeralda. Talhados com ouros dourados, dando um contraste no branco dos mármores, as bordas dos grandes e fenomenais quadros com grandes personalidades daquele e de séculos passados.
A janela dava para um campo verdejante com animais a pastar e os jardineiros a regar, plantar e podar as flores, gramas e árvores que rodeavam o colossal monumento central. Podia-se ver na entrada daquela bem estruturada mansão, um carro miserável com a cor desbotada e os pneus desgastados estacionado em frente às escadas que davam diretamente na porta em forma de arco que permitia a entrada dos moradores e trabalhadores ao salão principal.
- Majestade, ele chegou! – disse o homem que havia irrompido na sala.
- Deixe que ele entre! – disse o rei. – E, como eu sempre digo, pode me chamar de Amon Hewitt... Não gosto desta superioridade da qual me tratam.
- Desculpe-me, Sr. Hewitt. Vou buscá-lo. – informou, saindo do recinto.
O alto homem que estava sentado sobre o seu trono, levantou-se seguindo até a janela, passando a admirar a paisagem, que sempre o deixava tranqüilo, independente da situação que ele, ou o próprio mundo, que era comandado por ele mesmo, passava.
Podia-se ouvir o som dos instrumentos a tocar, ensaiando para apresentação de recebimento da rainha, que se realizaria nesta noite. As duas filhas, desde o dia passado, se preparavam para o evento.
- Majestade... – disse o servo. O rei lançou-lhe um olhar de reprovação. – Sr. Hewitt, já posso trazê-lo?
- Claro! – autorizou.
O jovem garoto, que aparentava ter acabado de sair da adolescência, com um rosto cheio de marcas do que parecia ser acne entrou com suas roupas desgastadas e cheias de rombos e nodoas.
- A que devo a honra da visita deste jovem rapaz? – perguntou o rei.
- Quero conversar com vossa majestade. – respondeu o jovem. – A sós... – completou lançando um olhar ao outro servo, ainda na sala.
- Basileu, pode se retirar. – ordenou.
Ao sair, Basileu trancou as portas, deixando-os sozinhos. Hewitt sentou-se em sua poltrona, lugar onde passava maior parte do dia, e ofereceu a cadeira ao seu lado ao rapaz que dividia a sala com ele.
- Pois não? – começou Hewitt.
- Gostaria de ter um pouco mais de liberdade.
Hewitt esbugalhou os olhos não entendendo o rumo da conversa recém-começada.
- Dou total liberdade aos meus servos. Tudo o que vocês têm que fazer é trabalhar pra mim. – disse Hewitt. – Vocês são livres para fazerem o que sentirem vontade! Nunca os privei...
- Mas não quero mais trabalhar pra você. – interrompeu o jovem, calmo. – Quero minha independência.
- Tudo bem! Mas tenho que avisar que ninguém que pediu independência durante todo o meu reinado e o reinado de meu pai, conseguiu sobreviver por muito tempo. – alertou Hewitt. – Tudo o que você olhou, olha e vai olhar, é meu!
- Estou ciente disto, majestade!
- Nem o Brasil conseguiu se manter de pé por muito tempo quando decidiu ter seu próprio rei. Igualmente, o Japão. Ambos estão novamente sobre o meu controle, e olha que são nações...
- Ainda assim, majestade... – interrompeu novamente. - Quero minha independência.
Tirou de dentro do bolso interno de sua surrada camisa, um pedaço de pergaminho, apresentando e indicando ao rei, onde deveria haver sua assinatura para poder usufruir sua liberdade. Hewitt, sem ler, assinou, pensando ter tornado livre aquele ignorante e jovem garoto à sua frente. Mas ao terminar de assinar o documento, o garoto quase o fez cair pra trás ao som daquela estonteante frase.
- Você acabou de me passar seu reino! – disse revelando os seus dentes amarelados.
- Co-como? – perguntou o rei sem entender.
- Tenho que acabar com sua vida para eu poder tomar posse do que é meu... – disse pensando no quão ingênuo, ou tolo era Hewitt ao assinar um contrato sem ler. Sabia que o plano era perigoso, mas valera a pena o risco.
- Não! Pense bem no que está fazendo!
O jovem moço, parecia não dar ouvidos a Hewitt. Ignorando os argumentos do rei, pôs sua mão novamente no bolso interno de sua velha camisa, tirando uma seringa com um conteúdo branco. Aproximou-se do homem, já desesperado à sua frente, imobilizando-o com sua força.
- Quer dizer suas últimas palavras, reizinho miserável?
- Meu Deus! – berrava. – Solte-me... Sou seu soberano!
- Soberano... Soberano... – disse, como se pensasse.Então, aplicou-lhe a injeção, que há muito trabalhava, no braço, deixando-o caído no chão e se posicionando na, agora sua, poltrona.

